PAPO DE ESPECIALISTA
Muito além do futebol: a Copa como arena global de disputas
Evento será marcado por debates sociais e pela influência de plataformas digitais nas narrativas fora dos gramados
Publicado em 16/06/2026 às 11:06
A bola começou a rolar nos estádios dos Estados Unidos, México e Canadá, e bilhões de pessoas já estão acompanhando a Copa do Mundo de 2026. Pela primeira vez, 48 seleções disputam o torneio, tornando esta a maior edição da história. Mas a singularidade deste Mundial talvez esteja menos no número de participantes do que no contexto em que será realizado.
Ao longo dos últimos vinte anos, pesquisas que desenvolvi sobre a cobertura internacional das Copas da África do Sul, Brasil, Rússia e Catar mostraram que os debates que mobilizam a atenção global frequentemente acontecem fora dos gramados. Apartheid, desigualdade social, protestos, autoritarismo, direitos humanos e geopolítica passaram a ocupar espaço tão importante quanto os resultados das partidas. A Copa deixou de ser apenas um torneio esportivo para se tornar uma arena global de interpretação das sociedades contemporâneas.
A edição de 2026 ocorrerá em um contexto particularmente significativo. Os Estados Unidos atravessam intensos debates sobre imigração, identidade nacional, polarização política e seu papel na ordem internacional. Assim como a Rússia foi frequentemente associada às disputas geopolíticas do governo Putin e o Catar, às discussões sobre direitos humanos, os Estados Unidos também serão observados por meio de suas próprias tensões e contradições. A Copa funcionará como uma vitrine ampliada das transformações que atravessam o mundo contemporâneo.
Existe, porém, uma diferença entre este Mundial e todos os anteriores. Pela primeira vez, uma Copa será realizada em um ambiente plenamente dominado pelas plataformas digitais e pela inteligência artificial. Redes sociais, influenciadores, algoritmos e sistemas automatizados participam hoje da produção e circulação das informações em escala global. Cada torcedor conectado à internet tornou-se um potencial produtor de conteúdo, enquanto plataformas digitais passaram a disputar com os meios tradicionais a capacidade de definir quais acontecimentos merecem atenção.
Mais do que uma mudança tecnológica, trata-se de uma transformação nos processos de produção dos significados coletivos. A questão central já não é apenas o que acontece dentro de campo, mas quem possui capacidade de narrar, interpretar e dar sentido aos acontecimentos. Os sistemas de inteligência artificial também participarão ativamente dessa dinâmica por meio de traduções automáticas, recomendações de conteúdo, resumos e novas formas de circulação da informação.
O filósofo Jürgen Habermas argumentava que a vida democrática depende da construção de interpretações compartilhadas sobre acontecimentos de interesse comum. Poucos eventos contemporâneos mobilizam simultaneamente tantos públicos quanto uma Copa do Mundo. A diferença é que, em 2026, essa experiência coletiva será mediada por plataformas, algoritmos e inteligência artificial.
A principal pergunta desta Copa talvez não seja apenas quem levantará o troféu ao final da competição. A questão igualmente relevante será quem conseguirá definir os significados do próprio torneio.
Fonte: Marco Antonio Bettine de Almeida é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP/Jornal da USP
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