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PAPO DE ESPECIALISTA

Felipe Franco explica por que o cutting mal feito destrói o que você construiu

Como preservar músculo enquanto perde gordura é um dos maiores desafios de quem treina sério

Publicado em 28/05/2026 às 10:36

Felipe Franco (Foto: Reprodução)

A fase de cutting é cercada de mitos, atalhos prometidos e informações incompletas. Quem já passou por um processo sério de redução de gordura sabe que o maior desafio não é perder peso na balança, mas sim chegar ao final do processo com a massa muscular que levou meses ou anos para construir. E é exatamente sobre isso que pouco se fala com honestidade.

O primeiro ponto que precisa ficar claro é que déficit calórico e déficit calórico agressivo são coisas muito diferentes. Cortar calorias demais, muito rápido, coloca o organismo em um estado de alarme. O corpo, ao perceber que a energia disponível caiu drasticamente, começa a buscar fontes alternativas de combustível, e o músculo entra nessa lista. O resultado é uma perda de peso acelerada no início, seguida de uma composição corporal pior do que a de partida.

O déficit ideal para quem quer preservar músculo enquanto perde gordura fica entre 300 e 500 calorias abaixo do gasto total diário. Esse número permite que o organismo acesse as reservas de gordura sem acionar os mecanismos de catabolismo muscular de forma intensa. A perda é mais lenta, mas o que fica no espelho ao final vale muito mais.

A proteína é o nutriente mais importante de toda a fase de cutting, e ainda assim é o que mais gente subestima ou distribui mal ao longo do dia. Durante o déficit, o consumo proteico precisa ser igual ou superior ao que se consome na fase de ganho. Isso porque a proteína é o substrato direto para a manutenção do tecido muscular. Sem ela em quantidade suficiente, o corpo simplesmente não tem matéria-prima para preservar o que foi construído. A referência prática é manter entre 2 e 2,5 gramas de proteína por quilo de peso corporal ao longo de todo o processo.

O treino de força não pode ser abandonado durante o cutting. Esse é um erro clássico de quem acredita que, estando em déficit, o corpo não consegue se recuperar adequadamente e que o volume de treino deve cair muito. O estímulo mecânico do treino com peso é justamente o sinal que o organismo recebe para entender que aquela musculatura precisa ser mantida. Reduzir demais a intensidade ou o volume é retirar esse sinal, e o resultado aparece na perda muscular.

O sono e o gerenciamento do estresse são variáveis que a maioria ignora completamente durante o cutting. O cortisol elevado, seja por noites mal dormidas ou por estresse crônico, atua diretamente sobre o tecido muscular e facilita o acúmulo de gordura visceral. Não adianta acertar a dieta e o treino e descuidar do que acontece fora da academia. O cutting exige que o corpo esteja em um ambiente hormonal minimamente favorável, e isso depende de descanso real.

A distribuição das refeições ao longo do dia também importa mais do que parece. Concentrar toda a proteína em uma ou duas refeições reduz a síntese proteica muscular em comparação com uma distribuição mais regular. O ideal é garantir pelo menos quatro a cinco momentos ao longo do dia em que o organismo receba aporte proteico suficiente para estimular a síntese e frear o catabolismo.

Por fim, há um fator psicológico que raramente entra nas conversas sobre cutting: a pressa. Quem impõe um prazo muito curto para o processo tende a forçar um déficit maior, comprometer o treino e negligenciar o sono. O cutting bem feito é um processo gradual, que pode durar meses dependendo do objetivo. Entender isso não é falta de comprometimento. É o que separa quem chega ao final com um físico de qualidade de quem perde gordura e músculo juntos e precisa recomeçar.

Preservar músculo enquanto perde gordura não é sorte nem genética privilegiada. É protocolo, consistência e paciência. Três coisas que a maioria dos atalhos vendidos por aí nunca vai te oferecer.

Fonte: Felipe Franco é fisiculturista, youtuber, empresário, modelo e deputado estadual por São Paulo